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Os Confrontos com as Autoridades

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Para podermos conhecer, com rigor, como aconteceram os levantamentos populares na Póvoa de Lanhoso, que ficarão para a história de Portugal como a “Revolução da Maria da Fonte”, o melhor é darmos a palavra aos próprios contemporâneos da Revolução.

Azevedo Coutinho registou nas páginas do Jornal Maria da Fonte, logo a partir do número 1 do ano da sua fundação (1886), num conjunto de textos que denominou de folhetim “História da Revolução da Maria da Fonte – Relato dos primeiros acontecimentos da Primavera de 1846, escritos 40 anos depois, sob orientação de um contemporâneo da Revolução”:

«O primeiro movimento revolucionário de 1846 assemelhou-se a uma dessas pequenas nuvenzinhas, que no alto mar aparecem aos navegantes, quando um sol esplêndido abrilhanta o azul celeste, e que, alastrando-se pouco a pouco, toldam o espaço, arrastando consigo uma furiosa tempestade, que muitas vezes faz soçobrar as embarcações.

Assim pois, essa nuvem revolucionária que se destacou no horizonte político de 1846, não parecia ter, em princípio, a gravidade que depois se chegou, se bem que as revoltas no Minho sejam sempre mais temidas que nas outras províncias do país.

O povo, que recebe sempre mal as inovações, não podia acomodar-se com as novas medidas do governo Cartista, que assim ateava o incêndio que havia de envolvê-lo.

A criação das matrizes prediais, das juntas de saúde e a proibição dos enterramentos dentro dos templos, e as novas estradas exaltavam sobremaneira os ânimos do povo, que via tudo por um falso prisma, não obstante serem boas medidas, que mais tarde foram adoptadas.

Os Setembristas, que queriam fazer baquear o ministério, exploravam habilmente a situação, fazendo uma acérrima propaganda contra o governo, e tornando-se ao mesmo tempo queridos do povo, que incitavam a revolta.

Entre governantes e oposicionistas davam-se sérias dissensões, que muitas vezes terminavam por vias de facto. Demais, o governo Cartista tornava-se assaz odioso pelas prepotências de Costa Cabral; e o povo, que já estava habituado as regalias que a Constituição lhe trouxera e se

recordava, com horror, do tempo da opressão, não podia tolerar que nas fileiras liberais existisse um sucessor do conde de Basto, e lhe estivesse confiada a governação do estado.

A atitude da oposição e o ódio que o povo votava ao governo tornavam-se cada vez mais pronunciados e ameaçadores.

O fogo estava latente e esperava-se que em qualquer ponto se manifestasse o incêndio.

Chegara o momento; e este concelho da Póvoa de Lanhoso apresentava-se na vanguarda.

O sexo feminino abandonara o lar e, trocando a roca pela fouce e o chuço, arvorava o estandarte da revolta abrindo caminho a uma encarniçada guerra civil.

A proibição dos enterramentos dentro dos templos exaltara poderosamente os ânimos do povo que, falto de instrução, não conhecia a utilidade dessa medida sanitária, nem queria alteração alguma nos antigos costumes. Esta medida foi a faísca incendiária que veio atear o fogo da revolta.

A 20 de Janeiro de 1846 teve lugar na freguesia de Fontarcada, deste concelho, a primeira manifestação hostil do sexo feminino.

Tinha de efectuar-se nesse dia o enterramento de José Joaquim Ribeiro, do lugar de Valbom, da mesma freguesia; e, em cumprimento da lei, devia ser o falecido sepultado no adro, visto não haver ainda cemitério. As mulheres, ao saberem disto, amotinaram-se e reuniram-se no dito lugar de Valbom com o firme propósito de conduzirem o cadáver ao mosteiro, que foi de frades beneditinos e depois matriz da paróquia, e efectuarem elas próprias o enterramento dentro do templo. Mas José Miguel Fernandes, do lugar de Oliveira, da mesma freguesia, que, na qualidade de comissário da junta de saúde, ali compareceu, pôde, com as mais sensatas reflexões, dissuadi-las do intento.

Este homem era benquisto da gente da freguesia, pela sua honradez e cordura; e por isso as mulheres respeitaram-no e desistiram do seu propósito.

Efectuou-se, pois, no adro o enterramento, sem que as mulheres se opusessem a esse acto.

Mas a serenidade dos ânimos não foi duradoura, e novamente se turvou o horizonte.

Umas doceiras de Valbom, por apelido Carneiros, que depois se distinguiram na revolta, e que eram próximas parentes do falecido, insistiam, intransigentes, para que o cadáver fosse sepultado no mosteiro, e fomentaram nova rebelião feminina.

No dia seguinte ao do enterramento, dispunham-se as mulheres para efectuarem a exumação do cadáver; mas o regedor da freguesia, Jerónimo Fernandes de Castro, da Casa da Chamusca do dito lugar de Valbom, conseguiu ainda, não sem bastante custo, conter as desordeiras, fazendo-as desistir dos seus projectos.

A nuvem rarefizera-se e a borrasca dissipou-se num ponto, mas foi, logo após, condensar-se noutro.

Os ânimos continuavam sempre na mesma exaltação.

Passados quinze dias apenas, a 5 de Fevereiro, deu-se na freguesia de Garfe idêntico tumulto, mas já mais pronunciado.

Havia falecido Maria Joaquina da Silva, mulher de Francisco Ribeiro; e as mulheres, reunindo-se amotinadas, conduziram a defunta a igreja da freguesia, e sepultaram-na, elas próprias, dentro de templo.

O regedor, Francisco Alves Pinheiro, da casa dos Condes, da mesma freguesia, ou por pouca actividade, ou porque favorecesse o tumulto, não efectuou prisão alguma nem perseguiu as revoltosas.

Este movimento feminino calava bem nos ânimos populares; e muitos regedores, abraçando intimamente a causa, não opunham o menor dique a torrente da revolta.

O administrador do concelho, José Joaquim de Ferreira de Mello e Andrade, da Casa das Agras, freguesia de Fontarcada, rigoroso no cumprimento dos seus deveres, participou o sucedido ao Governador Civil, pedindo providencias e forca armada, mas não obteve resposta alguma sobre o assunto. A revolta ia ganhando alentos. A autoridade administrativa, querendo reprimi-la no seu começo, dirigiu aos regedores uma circular em que os intimava a cumprirem rigorosamente os seus deveres, mantendo a ordem e fazendo vigorar a lei.

Isso sofreou um tanto os ânimos exaltados. Mas a hiena popular, que, furiosa, deixava ouvir os seus bramidos, investiu dentro em pouco, e com mais fúria, contra as ordens de sossego e tranquilidade.

As mulheres haviam assumido as atribuições dos homens, efectuando, com transgressão da lei, os enterramentos dentro dos templos. Estavam na falsa persuasão de que, atendendo ao sexo, não podiam ser perseguidas.

A freguesia de Frades, deste concelho, era, a seu turno, o teatro onde se repetiam iguais proezas femininas.

No dia 19 de Março, convergiram ali as revoltosas de várias freguesias, para conduzirem a igreja e sepultarem Engrácia da Silva, solteira, que falecera na antevéspera. Um crescido número de mulheres seguia o féretro, que era conduzido por Maria da Costa, casada, Doroteia d’Araújo e Ana Joaquina da Rocha. Chegadas à igreja, depuseram o ataúde, e assistiram todas a missa e ofício de corpo presente. Em seguida, obrigaram o pároco, João António Rebelo d’Araújo, e mais padres, a saírem da igreja e deram sepultura ao cadáver, sendo sepultantes as mesmas que o haviam conduzido.

O pároco, pouco satisfeito pela maneira como fora tratado pelas amotinadas, exprobou acremente o procedimento delas; mas depois, vendo a feição que as coisas tomavam, e receando a vingança feminina, retirou-se para a freguesia de Moreira do concelho de Guimarães, donde era natural, e lá se demorou por algum tempo.

Ainda desta vez não foram perseguidas as revoltosas, que assim ganhavam forcas para novas proezas.

Acelerava-se incidentalmente a marcha dos acontecimentos, que de dia a dia, tomavam maior aspecto. Houvera mutação de cena, e a freguesia de Fontarcada dava agora margem a novos processos.

Passados três dias apenas, a 22 de Março, faleceu no lugar de Simães, da dita freguesia, Custódia Teresa, mulher de Joaquim da Costa. O médico comissário de saúde do concelho, António Felipe Alves Vieira, tendo de examinar o cadáver, como a lei prescrevia, dirigiu-se, pelas três horas da tarde do mesmo dia, para o lugar onde se dera o falecimento. Esta nova, chegando a Simães com a velocidade do raio, produziu um tal alvoroço no mulherio que o médico teve de retroceder apressadamente, para escapar a sanha feminina, refugiando-se, às ocultas, em casa do major reformado de artilharia n.º 4, João Baptista Lopes Veloso, do lugar da Arrifana.

Este incidente causou grande alarme e excitou ainda mais os ânimos femininos.

No dia seguinte, das nove para as dez horas da manhã, achavam-se reunidos no lugar, e próximo da capela em que a finada fora depositada, bastantes pessoas, que esperavam incorporar-se no préstito fúnebre. Chegara o cura da freguesia, João Martins Lopes, em companhia do mordomo da cruz, Valério José da Silva; e estava prestes o saimento do féretro.

Nesta ocasião um numeroso grupo de mulheres, armadas de chuços, ferrelhas, sacholas e forcados, acercou-se da capela, fazendo retirar os homens que ali se achavam. Então, quatro das mais esforçadas penetraram no recinto sagrado, e, não atendendo ao cura, apoderaram-se do ataúde, colocando-o nos ombros, e seguiram em marcha acelerada para o mosteiro, que fica a um quilómetro de distância. À frente do préstito ia Maria Angelina, uma revoltosa façanhuda, conduzindo a cruz, que haviam arrebatado ao mordomo. A meio caminho encontraram-se as revoltosas com o administrador do concelho, que ia para acompanhar a finada e fazer vigorar a lei; mas vendo um tão numeroso acompanhamento de mulheres, de que se formava unicamente o préstito funerário, limitou-se simplesmente a admoesta-las, nem outra coisa era possível fazer.

Elas, porém, desatendendo-o, exclamaram:  “Viva a rainha! Abaixo os Cabrais e as leis novas.” E seguiram para a igreja da paróquia, onde entraram, colocando guardas as portas para não deixarem entrar pessoa alguma do sexo masculino. Depuseram o caixão sobre a eça, e em seguida abriram a sepultura, procedendo ao enterramento dentro do templo, sem que o pároco, Narciso José Afonso Pereira, pudesse obstar ao acto.

Com tal presteza andaram em tudo isto, que quando o cura, clero e seculares chegaram ao mosteiro estava tudo concluído; e as revoltosas, dando vivas à religião e às leis velhas e morras às leis novas, abandonaram o templo, retirando em de bandada. Correra o pano: estava neste dia terminada a comédia.

No horizonte iam-se aglomerando negras nuvens, que eram precursoras de furiosa tempestade.

A consequência destas cenas, presenciadas em parte pela autoridade administrativa, foi receber, na manha imediata, o regedor da freguesia ordem de captura para Joaquina Carneiro, Maria Vides, Maria Custódia Buceta e outras, como cabeças do motim.

O administrador do concelho participara logo para o governo civil os factos ocorridos, e de novo pediu uma força para restabelecer a ordem. Como lhe não fosse ainda desta vez satisfeita a requisição, passou a ordem de captura para as criminosas.

O regedor, que era rigoroso em cumprir os seus deveres, pôs-se em campo imediatamente e logo na tarde do mesmo dia foram presas as três principais revoltosas e encerradas na cadeia desta vila da Póvoa de Lanhoso.

Esta medida repressiva, longe de sofrear a revolta, excitou ainda mais os ânimos populares, principalmente ao sexo feminino, que não admitia que lhe opusessem resistências. Era necessário levantar auto do facto, e proceder a exumação do cadáver, para ser sepultado no adro: mas o juiz de direito não quis expôr-se as iras femininas, e delegou no juiz ordinário, António Joaquim de Sousa, que em companhia do delegado, bacharel José António de Sampaio e Castro, do escrivão, António Narciso Alves de Brito e do oficial de diligências, António Joaquim Gomes, se apresentaram no mosteiro de Fontarcada, logo no dia imediato, 26 do mesmo mês. Esse dia era uma sexta-feira em que havia confessores na igreja, por ser tempo de quaresma. As mulheres que lá estavam, vendo entrar a justiça e sabendo o intento com que ali ia, debandaram imediatamente.

Pouco depois, e ainda em princípio de seus trabalhos, vieram avisar os magistrados de que para ali se dirigiam mais de trezentas mulheres armadas de chuços, fouces e varapaus. Aproximava-se a tempestade, e era prudente evitá-la. Tomaram todos a mesma resolução, e imediatamente se puseram em fuga.

O delegado, porém, não tendo tempo de se retirar, ocultou-se por detrás da tribuna, onde conseguiu escapar a ira feminina desenfreada do mulherio.

As revoltosas, em crescido número, chegaram apos a fuga da justiça, encontrando na igreja somente os coveiros, que iam exumar o cadáver, o que não chegaram a fazer, e que por demasiada temeridade se não haviam retirado, O seu arrojo, querendo afrontar forças excessivamente superiores, valeu-lhes serem corridos às pedras pelas amotinadas.

O juiz e o escrivão foram ainda perseguidos no princípio da fuga e o primeiro recebeu nas costas uma pancada, que uma das revoltosas lhe deu com uma pá do forno! Foi porém, mais feliz com esta heroína, do que os espanhóis com a padeira de Aljubarrota. O escrivão perdeu simplesmente o chapéu, que uma das perseguidoras furou com um chuço, levantando-o no ar no meio de estrondosas gargalhadas.

Os sinos das freguesias circunvizinhas tocavam a rebate, e igualmente os de Fontarcada.

Parece que correntes eléctricas, atravessando os ares em diferentes direcções, levaram a pontos distantes a notícia do que ali se passava.

O toque dos sinos a rebate, nos campanários das aldeias, actua duma maneira inexplicável nos ânimos populares. Todas as fibras da sensibilidade se agitam; os ânimos retemperam-se; e em poucas horas surge uma revolta que muitas vezes tem graves consequências.

Assim foi que, deixando as revoltosas o mosteiro de Fontarcada, dirigiram-se ao lugar do Cruzeiro da mesma freguesia, afluindo ali, de todos os lados e como por encanto, milhares de mulheres, que, reunidas, formaram um numeroso concurso.

No intento de irem livrar as suas companheiras, resolveram seguir dali para a vila da Póvoa, distante dois quilómetros.

Uma das revoltosas mais façanhudas, e que mais sobressaía, era a Maria Angelina, de Simães. Trazia ela presas na cintura duas pistolas, e na mão uma clavina. Era a única que se apresentava com armas de fogo. Seguiram as amotinadas a caminho da Póvoa, em cordão compacto da largura da estrada a extensão de um quilómetro.

Pelos lados, nas fraldas dos montes e quebradas dos outeiros, viam-se homens armados, que, por longe, acompanhavam as revoltosas para lhes prestarem o seu auxilio, se se tornasse necessário.

Aquela encapelada onda feminina, desdobrando-se rapidamente, espraiou-se, furiosa, na Vila da Póvoa.

Antes, porém, de tentarem qualquer acto de força maior, as revoltosas dirigiram-se ao Juiz de Direito, e pediram-lhe que concedesse a liberdade às suas companheiras encarceradas.

O magistrado não podia diferir-lhes a petição, mas queria também evitar a cólera das amotinadas, de quem deveras se temia. Para conseguir o seu fim recorreu a uma evasiva, respondendo-lhes que as chaves da cadeia não estavam em seu poder, mas sim nas mãos do carcereiro.

As revoltosas retiraram-se mal impressionadas, por lhes não ser satisfeito o pedido; e, como o carcereiro não aparecesse, por se haver de propósito ocultado, resolveram valer-se dos últimos extremos.

Encaminharam-se resolutas para os Paços do Concelho, com o firme propósito de libertarem as presas. Subiram precipitadamente pela escada de pedra e, chegando ao patamar, descarregaram repetidos golpes de machado na porta externa do salão de audiências, despedaçaram-na e entraram tumultuariamente no salão.

Estava vencido o primeiro obstáculo, e as revoltosas exultavam de alegria; mas era preciso ainda arrombar o alçapão, que comunicava com o carcere. Lançaram imediatamente mãos a obra, e, dentro em pouco, as encarceradas viram jubilosas, aberta por sobre as suas cabeças uma passagem, que lhes daria a liberdade.

Por uma escada de mão, introduzida pelo alçapão, subiram as presas ao pavimento superior, vendo-se enfim salvas da prisão, e rodeadas pelas libertadoras companheiras.

Os presos pediam que os libertassem, igualmente, mas as revoltosas não atenderam o pedido, respondendo-lhes que se estavam encarcerados era por crimes cometidos, e não como as resgatadas, que trabalhavam a favor da pátria.

E assim, retiraram a escada, cerraram o alçapão e abandonaram os Paços do Concelho, levantando vivas entusiásticos à religião e à rainha, morras aos Cabrais e a abaixo às leis novas.

Depois desta proeza, e levando em triunfo as libertadas, dirigiram-se tumultuosamente para casa do administrador, dominadas por sentimentos vingativos. Não o encontrando, porém, saciaram a sua vingança queimando muita papelada inútil, pois que os livros e documentos importantes tinham sido postos a salvo pela previdente autoridade administrativa.

Quando o incêndio dos papéis se achava mais ateado, Joaquina Carneiro, do lugar de Valbom, lançou uns poucos incendiados a um montão de lenha seca, que, estando junto da casa, lhe comunicaria rapidamente o incêndio. Esta acção foi censurada pela maior parte das revoltosas, que acudiram prontamente ao fogo, dizendo que a vingança era com a pessoa e não com os haveres, que tinham de passar a herdeiros.

Joaquina Carneiro não gostou que lhe contrariassem os intentos, e, sendo-lhe reprovado o seu procedimento por um homem que presenciou o facto, ela levantou o varapau e desceu-lho sobre um braço, que quasi lhe deixou quebrado.

Tendo reduzido a cinzas os papéis, que julgavam importantes, as amotinadas debandaram, dirigindo-se para suas casas.

Os feitos, obrados naquele dia, deixaram-nas alegres e orgulhosas do seu poder. Sentiam novo vigor para outras e mais difíceis proezas.

Os ânimos, em lugar de esfriarem, estavam cada vez mais excitados.

A torrente da revolta tornara-se caudalosa, e inspirava sérios receios.

O administrador do concelho, em presença dos factos ocorridos na manhã desse dia, expediu uma participação expressa ao governador civil, certificando-o do que se passava. Em consequência disto, marchou de Braga para a Póvoa um destacamento de 50 praças do Regimento de Infantaria 8, comandado pelo tenente Taborda.

Chegou o destacamento ao Senhor do Horto, princípio do santuário do Pilar, mas em vista da diminuta força, e da pusilanidade do comandante, estacionou ali até terminarem os feitos das revoltosas! A tarde, ou quasi à noite, entrou na vila, depois de evacuada pelas amotinadas, e estando já restabelecido o sossego.

De facto, esta força, ainda que o tenente fosse intrépido e valoroso, era quase excessivamente diminuta para opor um dique a torrente da insurreição.

Como o foco da revolta se acentuasse pronunciadamente para o lado Oriental, foi removido o destacamento para a freguesia de Oliveira; mas imediatamente teve ordem de seguir para Vieira, onde a autoridade administrativa reclamava auxílio de força armada, para reprimir autênticos tumultos.

Do arrombamento da cadeia da Póvoa foi levantado auto, e processadas muitas das revoltosas, que nunca chegaram a ser presas.

Ao mesmo tempo que em Fontarcada se davam estas peripécias, a revolta ia-se alastrando pelo concelho…»

O relato da revolta de Azevedo Coutinho, publicado como disse no Jornal Maria da Fonte no ano de 1886, prosseguiu e levou à demissão do Administrador do Concelho que fez as mulheres da Póvoa de Lanhoso regressarem a suas casas. Agora a Revolução, já da “Maria da Fonte” avançava por todo o Minho, e por todo o Norte, para em pouco tempo determinar a queda do Governo de Costa Cabral…

Como percebemos, a revolta das mulheres da Póvoa de Lanhoso, tendo como razões próximas o enterramento dentro das igrejas vai revelar outras motivações, nomeadamente a contestação à ação das autoridades administrativas na pessoa do Administrador do Concelho, alargando-se à nova legislação e fiscalidade que choca com quase tudo o que até então era prática corrente.

A revolta das mulheres da Póvoa de Lanhoso como que faz deflagrar o rastilho que provocará o deflagrar do barril de pólvora em que o país se havia tornado. Depois da Póvoa de Lanhoso seguem-se um infindável número de revoltas que acabaria por ficar para a história de Portugal como a Revolução da Maria da Fonte.

Mais do que a ação das mulheres no desenvolvimento das ações de luta será o nome, em alguns dos casos o grito de revolta e, noutros, o grito de guerra em que se transformou a evocação do nome “Maria da Fonte”.

 

Atualizado em: 24 de fevereiro de 2015

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