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O Hino

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O Hino do Minho ou da Maria Fonte, contemporâneo da Revolução que assolou o país no ano de 1846 e que só viria a acalmar após a Guerra Civil de 1847, foi composto por Ângelo Frondoni e letrado por Paulo Midosi, no exacto momento em que os levantamentos em armas contra o Governo de Costa Cabral se repetiam de norte a sul do país.

Identificado também como um “Hino à Liberdade” é, em outros tantos casos, também associado como uma música que evoca a reacção.

O Hino, de alguma forma, comporta em si as próprias leituras de momentos, politica e socialmente complicados, vividos ou perpassados no processo de implantação do liberalismo português, de que a própria Maria da Fonte constitui um perfeito paradigma.

Se considerarmos que este hino foi composto em 1846, como poderá ser um hino da república, é o desafio a explicar a provocação…

Os compositores:

Angelo Frondoni, natural de Parma, nasceu em 1809, viria a morrer em Lisboa em 1891. Veio para Portugal em 1839 para o desempenhar no Teatro de S. Carlos funções de compositor e ensaiador. Segundo Fernando Calazans, Frondoni aderiu aos ideais revolucionários de 1846 e, por esse motivo, chegou a ser perseguido

Paulo Midosi – (n. 1821 – f. 1888) Foi um advogado notável e esteve sempre ligado ao mundo do jornalismo, pois colaborou na Ilustração e ajudou a lançar o Diário de Notícias. Em 1846, além de compor a letra para o «Hino do Minho», lançou também o jornal Revolução do Minho

A Letra

Glorifica a vitória popular que pôs fim ao despotismo dos Cabrais e incita-os a abandonarem o país, presença inaceitável. Elogia também a província do Minho por ter iniciado a revolução;

O refrão exorta à luta pela liberdade numa mensagem praticamente intemporal, como convém a um Hino, tornando-se simbólico…

A primeira Versão do Hino não associa directamente a Heroína “Maria da Fonte”, e os seus versos são também intemporais:

Baqueou a tirania
Nobre povo, és vencedor,
Generoso, ousado e livre,
Dêmos glória ao teu valor. 

Tal como o coro:

Eia, avante, portugueses!
Eia, avante! Não temer!
Pela santa liberdade,
Triunfar ou perecer! 

A associação à Revolução é evidente nas quadras seguintes, embora a alternância entre a intemporalidade e a revolução de 1846:

Os Atos Heróicos:

Algemada era a nação,
Mas é livre ainda uma vez;
Ora, e sempre, é caro à Pátria
O heroísmo português. 

O Minho:

Lá raiou a liberdade
Que a nação há-de aditar!
Glória ao Minho que primeiro
O seu grito fez soar. 

A Tirania:

Segue, ó povo, o belo exemplo
De tamanha heroicidade:
Nunca mais deixes tiranos
Ameaçar a liberdade. 

Os Cabrais:

Fugi déspotas! Fugi,
Vis, algozes da nação!
Livre, a pátria, vos repulsa!
Terminou a escravidão.

Apesar de metade dos versos remeterem para a revolução de 1846, a associação à “Heroína” acontece apenas pela voz popular, como cantaria Vitorino:

Viva a Maria da fonte,
Com as pistolas na mão,
Para matar os Cabrais
Que são falsos à nação. 

Viva a Maria da fonte,
A cavalo e sem cair,
Com a corneta na mão
A tocar a reunir.

 

As quadras populares exaltam Maria da Fonte, uma mulher armada que luta contra os Cabrais, numa retaliação merecida por terem traído o seu país.

Apresentam também a heroína montada num cavalo, um animal nobre, e usando uma corneta para convocar os populares para a luta.

Este hino contra a tirania foi cantado, pela primeira vez, no dia 24 de Junho de 1846, um mês depois dos principais incidentes revolucionários, em casa do Marquês de Nisa, por uma dama do teatro lírico, segundo João Augusto Marques Gomes.

Este autor cita outro episódio, onde o «Hino da Maria da Fonte» se fez também ouvir:

César de Vasconcelos, José Estêvão e Mendes Leite, emigrados da revolta de Torres Novas, que tinham podido regressar ao país, depois do triunfo dos liberais anti-cabralistas, assistiram, na noite de 6 de Julho de 1846, à representação do Alfageme de Santarém de Almeida Garrett, uma peça publicada em 1842, no Teatro de D. Maria II. Nos intervalos, tocou-se o «Hino da Maria da Fonte» e todo o público o cantou entusiasticamente.

Estas referências provam que se tornou, desde o primeiro momento, uma música bastante conhecida e apreciada. Não apenas em Lisboa como em todo o país – Maria Manuela Tavares Ribeiro apresenta 2 casos:

O de um estudante de Coimbra:

«Em 1846 – afirmaria anos mais tarde um estudante de Direito que militara no Batalhão Académico – “como era agitada e vigorosa em ideias a vida académica! – e acrescentava: que entusiasmo ao entoarmos o hino académico, o hino da Maria da Fonte, a Marselhesa” […]

… e o relato do Conde de Lavradio: “Ontem cantava um estudante em sua casa o hino do Minho quando passava um capitão da 1ª Companhia de Caçadores 7 que ordenou, de imediato, um destacamento para o aprisionar”. Duras penas para os suspeitos incentivadores do clima sedicioso!

De facto, anos mais tarde, o hino foi impresso sem a letra, o que prova que esta seria menos apreciada pelo público do que a melodia.

Fernando Calazans relaciona também este dado com o regresso de Costa Cabral ao Governo, em 1849, já que os versos do «Hino do Minho» não trariam boas lembranças ao político

O que dizem os diversos autores:

Camilo Castelo Branco confessa que guardaria para sempre essa música na sua memória, mas refere-se ao Hino nestes termos: «[…] os pianos com uma disenteria democrática patuleando em família o hino do Antas e da Maria da Fonte […]».

Rocha Martins assegura que o «Hino do Minho» era tocado «[…] tanto nos pianos das grandes damas como nos realejos dos mendigos […]», o que mostra o seu êxito no seio de todas as camadas da sociedade.

Eça de Queirós, na obra O Primo Basílio, publicada em 1878, refere o apego ao hino: «Detestava os reis e os padres. O estado das coisas públicas enfurecia-o. Assobiava frequentemente a “Maria da Fonte”…; e mostrava-se nas suas palavras, nas suas atitudes, um patriota exasperado».

O «Hino do Minho» foi diversas vezes comparado a outra canção política do século XIX, o hino francês. De acordo com Alberto Pimentel, «O hymno da revolução do Minho, chamado também da Maria da Fonte, é a nossa Marselheza: vibrante, enthusiastico, altivo, ainda hoje produz uma profunda impressão quando se ouve».

Teófilo Braga considera o «Hino da Maria da Fonte» mais belo ainda do que a própria Marselhesa e declara: «O hino da Maria da Fonte é o grito revolucionário de Portugal, torna a insurreição contagiosa».

No Cancioneiro Geral do Povo Português de Alves Redol,Lopes Graça e Maria Keil, publicado em 1964, a transcrição do Hino do Minho é antecedida de um breve e discreto comentário: «Onde se vê como um hino pode servir a muitos», como se impunha em pleno Estado Novo.

O Hino da Maria da Fonte, ao ter-se tornado intemporal permitiu a adopção por ideologias políticas diversas e, em alguns casos, antagónicas ou divergentes….

Da mesma forma que a figura da Maria da Fonte se tornou um símbolo intemporal na luta pela liberdade, por vezes um símbolo feminista, com uma plástica capaz de grandes criações e representações iconográficas ao longo de mais de 150 anos, inspiradora literária, poética, dramática e musical de resistência ou de força, também o seu hino adquiriu uma expressão atípica.

“A Portuguesa”, Hino Nacional, foi composta por Alfred Keil a 12 de Janeiro de 1890, em protesto contra o ultimato inglês da véspera. O poeta Henrique Lopes Mendonça compõe a letra no final do mesmo mês de Janeiro, por solicitação e em íntima ligação ao compositor da música.

Rapidamente “A Portuguesa”, de canto patriótico se transforma em hino republicano, embora, como se refere no próprio site da Presidência da República, na província “continuasse a ser preferido o Hino da Maria da Fonte”.

A inspiração de A. Keil teve 2 particulares referências:

“A Marselhesa”, hino da República francesa, notório mesmo na referência “Às Armas!” da própria letra; E o refrão, por seu turno, contém uma quase-citação do antigo Hino da Maria da Fonte(cuja popularidade em certos quadrantes, após a implantação da República, o recomendaria como potencial concorrente da Portuguesa à dignidade de hino nacional).

De canto de Guerra do Partido Progressista… a instrumento interventivo contra a ditadura do Estado Novo… até à defesa da Causa Monárquica.

Com a letra original, popularmente alterada ou sem letra… o hino da Maria da Fonte serve ideologias, interesses e intervenções, como disse, diversificadas e mesmo antagónicas.

Se o Hino da Maria da Fonte não é o Hino da República Portuguesa, continua a ser um Hino para a causa Republicana (como para a causa Monárquica).

Formalmente, o hino da Maria da Fonte foi adoptado oficialmente, no ano de 1913, pelo Governo da República Portuguesa, quando era Ministro da Guerra o General João Pereira Bastos, mantendo-se a música viva no Estado Novo, e ainda hoje é tocado, em algumas cerimónias oficiais militares.

Segundo o Regulamento de Continências e Honras Militares de Abril de 1981:

O «Hino da Maria da Fonte» deve ser executado, pela banda de música, pela fanfarra ou pelos ternos de corneteiros (clarins), durante o cerimonial, quando a guarda de honra presta continência a pé firme, nas visitas oficiais a unidades e estabelecimentos militares em terra, à chegada de determinadas entidades – o Presidente da Assembleia da República, o Primeiro-Ministro, o Chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas, o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o Vice-Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, os Chefes dos Estados-Maiores da Armada, do Exército e da Força Aérea, os Ministros, o Presidente do Supremo Tribunal Militar, os Secretários e Subsecretários de Estado, entidades estrangeiras ou oficiais generais estrangeiros de categoria equivalente (quando em visita oficial, na chegada, na partida e em actos solenes que o exijam), os Almirantes da Armada e Marechais, outros oficiais generais da Armada, Exército e Força Aérea (quando em serviço e entrem numa fortificação, unidade, campo de instrução ou estabelecimento militar e forem hierarquicamente superiores ao comandante respectivo). No caso de individualidades militares, executa-se o hino do ramo das Forças Armadas a que pertencem, mas, enquanto não houver hino da Marinha, será tocado o «Hino da Maria da Fonte» para os respectivos oficiais.

Quanto à visita oficial de oficiais do exército e da Força Aérea a bordo dos navios de guerra, um dos procedimentos a observar pela guarnição é executar o «Hino da Maria da Fonte», assim que chegam o Chefe de Estado-Maior-General da Força Aérea, o Vice-Chefe de Estado-Maior-General da Força Aérea, os Chefes dos Estados-Maiores do Exército e da Força Aérea ou o Presidente do Supremo Tribunal. (Cf. Regulamento de Continências e Honras Militares, cap. 8, Quadro C, pp. 8-5 e 8-6).

Hino da Maria da Fonte – Instrumental (music 1.4Mb)

Maria da Fonte – Exposição Itinerante (PDF 14.1 MB)

 

Atualizado em: 29 de dezembro de 2014

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