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A Heroína e o Mito

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A heroína que a Póvoa de Lanhos legou à história de Portugal, mais do que uma mulher, com nome próprio, acabará por transformar-se num símbolo, não identificado mas reconhecido por todo um império, chegando a 4 continentes, conotado com uma imagem de força popular, capaz de se revoltar contra o poder instituído em defesa dos seus valores, contra o autoritarismo em que se havia transformado o exercício do governo. Alguém capaz de enfrentar apenas pela coragem e com o coração adversários fortes protagonizados no poderoso Estado.

As mulheres, protagonistas dos levantamentos populares da Póvoa de Lanhoso, são, formal e perfeitamente, identificadas, todas com nome próprio. Da Maria Angelina (a revoltosa façanhuda de machado na mão e roçadoura ao ombro) à Maria Luiza Balaio (estratega e dinamizadora, dona de uma estalagem localizada frente a uma fonte, onde recebia e brindava as revoltosas), da Ana Maria da freguesia de Fontarcada (que arrombou as portas da cadeia) à Joaquina que foi presa pelas autoridades (e terá dado o nome de Maria da Fonte às autoridades para não vir a ser pronunciada), da Josefa Caetana à doceira que acaba por usar o nome para benefício pessoal, ou a muitas outras que por uma e outra razão perceberam alguma motivação para assim se fazerem conhecer ou reconhecer na participação da revolta popular de 1846.

A verdade é que, logo no momento da revolta, as próprias autoridades têm grande dificuldade em fazerem uma associação tornando-se na “bandeira” que atravessará todo o país em defesa de todas as opções, assumindo-se a Maria da Fonte enquanto estandarte comum aos Absolutistas e aos dos Setembristas, dos constitucionalistas aos cartistas, cada um reclamando para si o protagonismo alcançado pela revolta das mulheres da Póvoa de Lanhoso.

A construção de uma figura quase mitológica em torno da Maria da Fonte iniciou-se logo no ano de 1846, não apenas pela criação de um hino à revolução em que se transformara, o Hino do Minho ou Hino da Maria da Fonte, como originou uma vasta produção literária e iconográfica, da peça de teatro de António Feliciano de Castilho “Cronica Certa e Muito Verdadeira de Maria da Fonte” aos ícones figurativos de um jornalismo setembrista, também em 1846.

Se a construção da figura da Maria da Fonte passa por discursos ou palavras, de Almeida Garrett a Oliveira Martins, em visões românticas e de reforço positivo da mulher minhota, será a partir da publicação de Camilo Castelo Branco “A Maria da Fonte” (1885) que a confusão se instala, mercê de um ensaio literário que, mais do que romancear, pretende recolocar o seu pensamento político face ao conturbado período que o país atravessava, identificando os seus adversários e os seus pensamentos.

E exatamente a partir da publicação camiliana, que inicia com a história de uma menina que teria sido exposta junto a uma fonte (Fonte do Vido) na freguesia de Fontarcada, junto à qual teria sido encontrado um bilhete com a quadra “Eis-me exposta junto à linfa / que emana deste monte / serei dela clara ninfa / serei Maria da Fonte”, que a literatura vai encontrar “estórias” para proliferação de referências de oportunidade múltipla.

A principal curiosidade desta versão camiliana reside na origem desse primeiro texto, cujos apontamentos são fornecidos ao romancista por José Joaquim Ferreira de Melo e Andrade, o Administrador do Concelho da Póvoa de Lanhoso à data dos acontecimentos da primavera de 1846, como o próprio Camilo reconhece quer em carta, quer na própria edição, e que havia sido o principal alvo da revolta das mulheres.

Em resposta a esta versão romanceada da Maria da Fonte, vai responder a Póvoa de Lanhoso logo no ano seguinte à publicação do romance de Camilo com a “História da Revolução da Maria da Fonte – Relato dos primeiros acontecimentos da Primavera de 1846, escritos 40 anos depois, sob orientação de um contemporâneo da Revolução” publicado no jornal semanário que muda o seu nome logo no ano seguinte (1886) para “A Maria da Fonte” e procura recolocar a verdade na informação veiculada por Camilo Castelo Branco.

Será a história e particularmente as próprias instituições locais a perpetuarem a associação da Maria da Fonte à Póvoa de Lanhoso. Primeiro através do Jornal “Maria da Fonte” que tem edição contínua desde esse ano de 1846, fazendo perpassar a heroína ao longo de mais de 125 anos que diariamente chega a casa de milhares de leitores e, a partir de 1925, o Sport Clube Maria da Fonte (principal grupo desportivo da Póvoa de Lanhoso) que semanalmente através dos jornais faz recordar o nome da heroína a todo o país, resistindo e atravessando regimes, políticas e sensibilidades.

É, aliás, a elasticidade aportada enquanto símbolo de todas as lutas que permitem que a Maria da Fonte ainda hoje seja “um símbolo acarinhado tanto pela extrema esquerda como pela extrema direita”, cujo Hino é adotado pelo Ministério da Guerra em 1913 sendo identicamente executado em evocação à monarquia ou interpretado com letra e refrão intervencionista, ou ainda se revela uma luta transposta para a literatura de forma quase subversiva com “O Render dos Heróis de José Cardoso Pires” ou integrando um cancioneiro de apologia contestatária exemplarmente expressivo em “As 7 mulheres do Minho” com Zeca Afonso.

A Póvoa de Lanhoso, que erige uma estátua na década de 80 do século XX, quando já em Lisboa, Angola ou Brasil, a Maria da Fonte era símbolo pétreo ou topónimo frequente, assume-se hoje, simultaneamente, como herdeira e legatária desta valiosa herança das suas gentes.

Atualizado em: 26 de fevereiro de 2015

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